Após a leitura de Vozes de Tchernóbil, estou pensando seriamente em reiniciar a
leitura de O Homem sem Qualidades, de
Robert Musil. Estou sentindo a necessidade de uma descoberta mais profunda de
mim mesmo, e como não tenho condições, por enquanto, nem de tempo nem de
dinheiro de me consultar com um psicanalista, pensei que uma aventura
intelectual deste nível poderia ser uma boa pedida. Esses livros que expõem um
panorama geral de uma determinada sociedade e seus conflitos são, pelas minhas
experiências anteriores de leitura, muito enriquecedoras. Eu já havia lido as
primeiras 300 páginas no fim do ano passado, mas larguei a leitura quando
percebi que não a estava fazendo da maneira correta. Estava lendo nas pressas
um livro que não é para ser lido nas pressas, ainda que, de qualquer forma,
ele já estivesse me trazendo muitas inquietações subconscientes. Eu havia decidido
que, quando o retomasse, iria fazer uma leitura reflexiva. Muitos dos pontos de
vista, dos perfis de personalidade que eu imensamente me identifico, que
refletem a mim mesmo, foram encontrados tanto em personagens absolutamente
cativantes como em outros abomináveis e moralmente repreensíveis, e tudo isso
me incomodou bastante, mas ao mesmo tempo, exerceu em mim um fascínio estranho.
Imediatamente tive de fechar o calhamaço. Prosseguir numa leitura superficial
seria um tempo mal gasto. Para uma autodescoberta, sinto que este é o livro
ideal. Essa necessidade que sinto agora é bem curiosa, visto que o protagonista
do livro tem esse mesmo intuito. Como se dá o desenvolvimento do
autoconhecimento numa sociedade tecnocrata? Qual o destino daqueles que se
propõem a pensar livremente numa era em que as profissões se encontram institucionalizadas
no âmbito do estado e das empresas públicas e privadas? Pois bem, a partir de agora, inicio esse
projeto de tempo indeterminado, e convido quem porventura vier a ler esse blog a me
acompanhar nessa empreitada.
segunda-feira, 27 de junho de 2016
domingo, 26 de junho de 2016
Presente do dia dos namorados ou sobre escutar o que os outros têm a dizer sem condescendência para vozes extremistas
12 de junho de 2016. No dia dos
namorados, ganhei uma caixinha vermelha repleta de bombons trufados (guloso que
sou, comi todos naquele mesmo dia) e de tiras de papel maché coloridas como adorno, por baixo das quais havia um pacote
embrulhado. Logo reconheci o formato de um livro, e pelo peso e tamanho, tentei
adivinhar qual o titulo, sem lograr sucesso. Não lembro exatamente qual o livro
que imaginei que fosse (acho que Nada a
Invejar, sobre a realidade da vida na Coréia do Norte, o país mais fechado
do mundo, que eu quero muito ler). Quando rasguei o pacote, vi o livro Vozes de Tchernóbil – A História Oral do
Desastre Nuclear. No mesmo dia comecei a ler e terminei suas cerca de 380
páginas exatamente em duas semanas, ou seja, hoje, 26 de junho de 2016.
Trata-se de uma série de relatos compilados por Svetlana Aleksiévitch, autora
desse e de outros livros de relatos que cursam acerca de aspectos diversos da
realidade e da sociedade soviética do século XX e XXI, que lhe renderam o
Prêmio Nobel de Literatura de 2015. Em seu discurso após receber o prêmio, ela
falou: “Flaubert disse de si mesmo que era um ‘homem pena’. Posso dizer que sou
uma ‘mulher ouvido’”. E é isso mesmo. Após lê-lo, recebi o convite de aprimorar
a capacidade de escutar e de calar nos momentos corretos, de ouvir o que as
outras pessoas têm a dizer sem julgamentos, sem reservas, a necessidade de
desenvolver o respeito pela diversidade de vozes e opiniões sem ser
condescendente com opiniões extremistas. O termo “coro de vozes”, a técnica que
ela utiliza em sua escrita, é um conceito lindo que abarca toda a diversidade
de melodias existentes numa só partitura. O discurso de Chimamanda Ngozi
Adichie no TED sobre a necessidade da multiplicidade de vozes para se quebrar
os malefícios provocados pela formação e sedimentação de estereótipos nunca fez
tanto sentido para mim quanto quando da experiência de ler este livro. Um belo
presente de dia dos namorados, não? As reflexões que esta obra-prima me proporcionou
compartilharei aos poucos em textos futuros.
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